Você já teve a sensação de que está fazendo tudo certo com o seu dinheiro e, ainda assim, alguma coisa parece não funcionar?
As contas estão pagas. Você tenta não gastar demais. Talvez até consiga guardar alguma coisa de vez em quando.
Mas basta acontecer um imprevisto, surgir um mês mais caro ou você se permitir gastar um pouco mais para aquela velha sensação voltar: “Meu dinheiro acabou de novo. Onde foi parar?”
Durante muito tempo, eu associei organização financeira principalmente a controle.
Eu cresci vendo minha mãe e minha avó serem muito regradas com dinheiro. Conta tinha que ser paga certinho, tudo precisava estar organizado e qualquer gasto fora do previsto já era motivo de preocupação.
Isso me ensinou coisas muito importantes. Como organizar as finanças pessoais
Mas também percebi, depois de adulta, que carreguei comigo uma outra coisa: uma mentalidade de escassez.
Era como se o dinheiro nunca fosse ser suficiente.
E existe uma diferença enorme entre controlar dinheiro por medo de faltar e organizar dinheiro sabendo o que você quer fazer com ele.
Foi justamente por isso que um método japonês chamado Kakebo me chamou tanto a atenção.
Afinal, o que é Kakebo?
Kakebo vem do japão e significa, basicamente, um livro de contas domésticas.
O método está associado à jornalista japonesa Hani Motoko, que publicou seu livro de organização das finanças domésticas em 1904. A própria editora japonesa que mantém essa tradição até hoje descreve a proposta original como uma maneira de planejar o orçamento e registrar os gastos para melhorar a administração da vida doméstica.
Mas ele vai muito além de simplesmente: como organizar as finanças no caderno.
Mas não é apenas um caderno onde você anota que gastou R$15 aqui e R$80 ali.
A parte que achei mais interessante está na reflexão.
Em vez de olhar para a conta bancária apenas depois que o dinheiro acabou, você começa a prestar atenção no que está fazendo enquanto toma suas decisões.
E isso muda bastante coisa.
O que o Kakebo tem de diferente?
Hoje, uma das maneiras mais conhecidas de aplicar o Kakebo organiza os gastos em quatro grandes grupos:
Necessidades: aquilo que mantém sua vida funcionando, como moradia, alimentação, contas básicas e transporte.
Desejos: gastos que você escolheu fazer, mas que não são essenciais naquele momento.
Cultura ou desenvolvimento: livros, cursos, aprendizado e outras experiências que acrescentam algo à sua vida.
Extras ou imprevistos: gastos irregulares, como reparos, presentes ou determinadas despesas inesperadas.
Essa estrutura de quatro grupos aparece amplamente nas versões contemporâneas do método. Porém, vale uma curiosidade: embora o Kakebo original tenha surgido em 1904, não há evidência primária suficiente para afirmar que esses quatro nomes, exatamente dessa maneira, faziam parte do primeiro modelo de Hani Motoko.
E talvez você esteja pensando:
“Tá, mas eu posso fazer exatamente isso em uma planilha financeira.”
Pode.
Só que aí aparece uma das coisas mais curiosas do Kakebo.
Você precisa prestar atenção no dinheiro
Pense em quantas coisas acontecem automaticamente hoje.
O cartão registra a compra.
O banco categoriza.
O aplicativo mostra um gráfico.
A fatura fecha.
Você paga.
E começa tudo de novo.
É perfeitamente possível ter um aplicativo cheio de gráficos bonitos e continuar sem entender por que você gasta do jeito que gasta.
No Kakebo, a proposta é muito mais deliberada: você registra, acompanha e depois reflete sobre suas escolhas.
Ou seja, a pergunta deixa de ser apenas:
“Quanto eu gastei?”
e começa a ser:
“Por que eu gastei isso?”
Essa segunda pergunta, para mim, é muito mais interessante.
Porque nem todo gasto acontece por necessidade
Eu percebi isso na minha própria vida.
Quando trabalhava em farmácia e passava por períodos em que estava emocionalmente mais vulnerável e insatisfeita com o trabalho, eu acabava gastando mais com fast food.
Não era simplesmente fome.
Tinha uma compensação ali.
Era uma maneira de encontrar um pequeno prazer depois de um dia ruim.
Naquele momento, eu provavelmente não pensaria: “Estou fazendo um gasto emocional”.
Eu simplesmente comprava.
É justamente quando começamos a observar os nossos gastos com mais atenção que certos padrões aparecem.
Talvez no seu caso não seja comida.
Pode ser roupa.
Delivery.
Comprinhas pequenas na internet.
Aplicativos.
Um “eu mereço” depois de uma semana difícil.
Separadamente, cada gasto parece insignificante.
O interessante é descobrir o padrão.
E ganhar mais não resolveu automaticamente isso para mim
Essa talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que aprendi sobre dinheiro.
Quando comecei a ganhar relativamente bem trabalhando na Drogaria São Paulo, meus custos também começaram a aumentar.
E eu achava que sabia administrar dinheiro.
Até perceber que saber pagar minhas contas não significava necessariamente saber administrar uma renda maior.
Quando o salário aumenta, existe uma tentação muito silenciosa de aumentar junto o padrão de vida.
Um delivery a mais parece pequeno.
Uma compra melhor parece justificável.
Uma facilidade aqui, outra ali.
E, quando percebemos, aquela renda que parecia que finalmente seria “suficiente” também ficou apertada.
Foi aí que uma pergunta começou a fazer muito mais sentido para mim:
se eu conseguia viver com menos antes, quanto do aumento da minha renda realmente precisava virar aumento de consumo?
Não estou dizendo que você nunca deve melhorar seu padrão de vida.
Dinheiro também existe para proporcionar conforto, experiências e qualidade de vida.
A questão é fazer isso conscientemente.
Como começar a usar o Kakebo
Você não precisa comprar um caderno japonês nem transformar sua organização financeira em um projeto complicado.
Pode começar com papel e caneta.
No início do teste, registre quanto dinheiro você espera receber e quais compromissos financeiros já possui. Defina também quanto gostaria de reservar antes de distribuir o restante entre seus gastos.
Ao longo do mês, registre aquilo que gastar.
Nas versões contemporâneas mais difundidas do Kakebo, você pode separar as despesas entre necessidades, desejos, cultura/desenvolvimento e extras.
Mas não transforme isso apenas em contabilidade.
Quando o período terminar, olhe para o que aconteceu e se pergunte:
O que eu planejava fazer com meu dinheiro?
O que realmente fiz?
Quais gastos me surpreenderam?
O que eu faria diferente no próximo mês?
É nessa reflexão que o método começa a ficar interessante.
Kakebo não é uma fórmula para ficar rico
Você pode encontrar na internet promessas de que o Kakebo fará você economizar uma determinada porcentagem da renda.
Eu teria bastante cuidado com isso.
Não existe uma evidência concreta que permita prometer que uma pessoa vai economizar uma porcentagem específica ou qualquer outro número simplesmente por começar a usar o método.
E, sinceramente?
Acho que transformar o Kakebo em mais uma promessa de “economize X%” tira justamente o que existe de mais interessante nele.
Ele é uma ferramenta.
Quem precisa mudar o comportamento somos nós.
Talvez você não precise ganhar mais primeiro
Essa é a reflexão que eu gostaria que você levasse deste artigo.
Talvez você realmente precise aumentar sua renda.
Para muita gente, isso é uma necessidade concreta.
Mas também existe outra pergunta que vale fazer:
se sua renda aumentasse amanhã, você saberia exatamente o que fazer com esse dinheiro a mais?
Eu já achei que sabia.
Hoje percebo que organização financeira não é apenas conseguir pagar tudo no final do mês.
É entender o que você está construindo com aquilo que ganha.
É dar propósito ao dinheiro.
É perceber os seus padrões.
E, principalmente, repetir boas decisões durante tempo suficiente para que elas comecem a produzir resultado.
Pensando nisso, gostaria de te convidar a se aprofundar mais sobre alguns erros que voce pode estar cometendo sem perceber e deixando dinheiro na mesa, basta clicar e ler 👉9 erros que destroem suas finanças e te mantém no negativo
Nenhum caderno japonês vai fazer isso por você.
Mas talvez sentar, pegar uma caneta e começar a perguntar por que seu dinheiro está indo para onde está indo seja uma maneira diferente de começar.
E essa pequena mudança de pergunta pode revelar muito mais sobre a sua vida financeira do que você imagina.


